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domingo, 9 de dezembro de 2018

Ordesa

Estou a ler este Ordesa, de Manuel Vilas (Alfaguara, 2018; ainda não há edição portuguesa), e é avassalador. Fragmentária, que avança (ou recua, para tomar balanço) em frases cruas e curtas (mas sempre com um certo tom de humor, por muito duro que seja o que conta), esta espécie de biografia desencantada tem como o pano de fundo os Pirenéus, as montanhas de Ordesa (e, com certeza, lá no fundo, o Monte Perdido). Também me perdi muitas vezes nesta região, mas de boa vontade o repetiria.


Deixo um pequeno excerto, traduzido ao correr do teclado digital:
No final da vida das pessoas, o único problema real que se apresenta é o que fazer com os cadáveres. Em Espanha há duas possibilidades: o enterro ou a incineração. São duas belas palavras que encontram as suas raízes no latim: converter-se em terra ou em cinza.
A língua latina prestigia a nossa morte.


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Ligeia e Augustine

Georges Simenon é, para mim, um porto seguro da boa leitura. Nos seus livros há gente, há sítios, aromas, gostos, amores, ódios... Leio-o com aquela confiança de que vou ler as palavras certas para mergulhar nas próprias histórias. Mas, ontem, conseguiu surpreender-me. Não me passava pela cabeça que um conto (não mais que meia dúzia de páginas!) como Mademoiselle Augustine (1932) estivesse tão longe do Simenon que eu conheço e tão perto de Edgar Allan Poe (fui, até, reler Ligeia (1838), essa história que também trata de renascimento e possessão, em tom bastante mais negro). Mademoiselle Augustine começa assim:
     Quando, ontem de manhã, encontrei na escada a porteira que corria com ar abalado, eu já sabia da coisa, apesar de não me terem dito nada.
     O que me terá levado a sussurrar, sorrindo:
     — Então, ela está morta?
     Ignoro-o. Foi mais forte do que eu. Eu estava muito alegre. Ou melhor, a palavra não é exata. Eu estava leve, leve. Lá fora, chovia. As paredes da escada estavam embaciadas. Havia vestígios de pés enlameados nos degraus, e no entanto aquela manhã tinha, para mim, um gosto de manhã de primavera.
     Pobre porteira de olhos vermelhos, com o pequeno corpo febril, agitado, que corria de apartamento em apartamento para levar a correspondência ao mesmo tempo que a novidade! Será que ela viu que eu sorria, com um sorriso espontâneo e feliz, que subiu aos meus lábios sem que conseguisse contê-lo? Espero que não, porque ela é incapaz de compreender.
Em "Nouvelles introuvables" (Omnibus, 2014), traduzido do belga um pouco a correr.



quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Um fiel retrato

Sempre brilhante, mesmo quando está a falar de outra coisa, John Le Carré retrata com olho clínico/cínico a relação dominante da sociedade portuguesa contemporânea, a do Homem com o seu Cão.
E apontando para Lantern, que voltara a emergir ao seu lado:
– Já conheces o meu pequeno Ian? É claro que sim. O Ian é o meu poodle britânico. Passeio-o em Charlottenburg todas as manhãs, não é verdade, Ian?
– Religiosamente – respondeu Lantern, parando ao seu lado com uma expressão agradecida. – E também apanha a merda que faço – acrescentou, com um piscar de olhos para o novo amigo Günther.
(Em "Um Homem Muito Procurado". Dom Quixote, 2008)

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Um não-lugar


O conceito de não-lugar foi desenvolvido pelo etnólogo e antropólogo francês Marc Augé no seu livro de 1992 Non-lieux (Não-lugares - Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade). O Google Books diz isto:
O não-lugar é diametralmente oposto ao lar, à residência, ao espaço personalizado. É representado pelos espaços públicos de rápida circulação, como aeroportos, rodoviárias, estações de metro, e pelos meios de transporte - mas também pelas grandes cadeias de hotéis e supermercados. Só, mas junto com outros, o habitante do não-lugar mantém com este uma relação contratual representada por símbolos da supermodernidade, seja um bilhete de metro ou avião, cartões de crédito ou o cartão telefónico, além de documentos - passaporte, carteira de motorista ou qualquer outro-, símbolos que, enfim, permitem o acesso, comprovam a identidade, autorizam deslocamentos impessoais. Neste livro, Marc Augé abre novas perspetivas, propondo uma antropologia da supermodernidade que nos introduz ao que talvez seja uma etnologia da solidão.
Mas há outro tipo de não-lugar, como o que fica aqui na rua ao lado de minha casa. É um buraco com uma placa informativa a condizer.





Não desesperemos. Em dois mil e qualquer coisa saberemos exatamente o que é mais este sinal da prosperidade económica nacional.